Ida ao rio
Não há muito para fazer nos tempos livres do fim de semana.
Em Maliana, não convém sair à noite, pois as ruas não são iluminadas (apenas
existe a luz das lâmpadas das próprias casas – a luz eléctrica existe há menos
de um ano), não há um café que se possa frequentar ou um jardim onde se possa
relaxar um pouco. Então, enquanto estamos em casa, lemos (e tenho lido
bastante), vamos ao mercado, costuramos
se for necessário, cozinhamos, conversamos, fazemos exercícios de ginástica,
temos sessões de cinema, etc. Quando o tempo é propício a isso (sem excesso de
calor ou de chuva) podemos dar alguns pequenos passeios. Foi o que ontem
fizemos. Para mim, foi a primeira vez. Fomos ao rio (ou como quem diz à ribeira
porque dada a pouca extensão dos cursos de água que aqui existem, devem ser
denominados ribeiras e não rios). Já o tinha visto no Google mas não
presencialmente. É um curso de água que vem da 5ª montanha mais alta de
Timor-Leste – o Loelaco. Serpenteando, derrubando margens, arrastando enormes pedras,
desbravando caminho para, rapidamente, chegar à planície onde as águas finalmente
se tornam mais calmas ao encontrarem espaço livre num leito forrado de pequenas
pedras que se foram soltando, rolando e torneando.
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| Pedras arrastadas pela força da água |
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| A ponte pedonal que precisa de reparação |
Depois de descer a rua e virarmos à esquerda, entramos nos
campos verdejantes onde aqui e ali algumas vacas se alimentam calmamente. Logo
depois há uma ponte, por cima de um rio mais pequeno, a precisar urgentemente
de reparação, por baixo da qual foi construído o canal que transporta a água
roubada ao rio para servir a população de Maliana. Água ligeiramente
cinzento-esverdeada talvez devido às águas sulfurosas das termas de Marobo, uns
quilómetros mais acima (estas águas, que usamos no banho, quando aquecidas
emanam um cheiro a enxofre). Será que são boas para a pele? Pode ser. Mas
notamos que aqui a roupa se gasta mais do que habitualmente. E o vento? Nesta
época, sopra bastante mas há muito menos humidade. O assobio do vento, o som
abafado das árvores mais esguias, o estalar das velhas folhas das
palmeiras juntam-se ao barulho das águas
revoltas para criarem a música que nos acompanha em todo o percurso.
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| Crianças a transportar lenha |
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| O rio |
Pelo caminho, algumas crianças transportam lenha à cabeça,
lenha essa que irá servir de combustível para cozinhar e, para além do cumprimento
habitual “botarde”, não se inibem de pedir “one dólar” a cada um de nós. Têm
pouca sorte. Ninguém leva dinheiro. Só óculos, água, máquina fotográfica e
toalha para depois do banho. Acompanhando o canal, eis que surgem as comportas
que desviam a água do rio (já reparámos que quando chove, a água deixa de
correr no canal para logo regressar quando ela deixa de cair) e, logo a seguir,
é necessário atravessá-lo. Não é difícil, pois, nesta altura o caudal é
bastante reduzido. É preciso sim ter algum cuidado para não escorregar.
Ultrapassada esta etapa, chegamos à zona onde uns meses atrás existiam campos
mas que a água arrastou consigo. Tomar banho, não tomar banho. Uns decidem que
sim, outros que não. Eu só molho os pés. Aqui a água é um pouco mais fria mas
nada que iniba quem é mais afoito e que acaba por se besuntar com a lama que
por ali há na esperança dos seus benefícios para a pele. Um pouco de sol e de
conversa e é necessário regressar a casa.
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| O gondoeiro |
Agora anoitece cedo. Por volta das 6h 30m escurece. Viemos por outro caminho, igualmente agradável onde é possível
encontrar algumas casas de habitação tradicionais, de zinco e até de pedra onde
não faltam crianças pequenas. Alcançamos a estrada que já teve melhores dias,
viramos à esquerda e ganhamos força para a subida que todos os dias fazemos mas
em quatro rodas. Chegamos a casa, um banho e são horas de preparar o jantar.
Hoje não é o meu dia de cozinhar.
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| O convívio saudável entre espécies diferentes |