É quarta-feira de cinzas e é feriado em Timor. É a única
pausa no período de carnaval que aqui não se comemora.
A missa está marcada para as oito da manhã. A igreja está
apinhada de gente. Gente nas cadeiras, gente nos bancos, gente em cima das
pedras, gente em cima do areão e até gente em cima das madeiras das obras da
igreja. Mais de 1500 pessoas assistem com devoção a uma missa celebrada em
tétum e presidida pelo sr. Bispo.
Admiro aquela gente tão jovem (diria que 80% do total terão menos
de 40 anos) que calça o melhor sapato e veste a sua roupa
domingueira para assistir à missa, roupa essa que me faz voltar atrás no tempo.
Relembro a minha meninice, os vestidos de folhos e os sapatos de verniz para as
meninas, a camisa axadrezada e as calças, agora de ganga, para os meninos, as
lipas (espécie de saias) das senhoras que com os véus na cabeça ainda mantêm a
tradição.
Admiro as 3 enormes filas de pessoas que durante cerca de 45
minutos, ordeiramente, saem do seu lugar para lhes serem impostas as cinzas na
testa.
Admiro as vozes bem ensaiadas de um grande coro que
acompanha a cerimónia de uma ponta à outra entoando cânticos em uníssono como
se de uma só voz se tratasse.
Admiro as crianças que sabem estar numa cerimónia que dura
quase há duas horas mas que é interrompida pelo choro de uma ou outra e pela
irrequietude de uns que logo são admoestados pelos adultos mas que insistem em
passar à frente. São atrevidos e conseguem atingir o seu objectivo.
Por entre a multidão, vislumbro a minha aluna que, ao
ver-me, anuncia a minha presença (uns quantos haveriam de confirmar a notícia
ao virarem-se para trás).
A missa está quase no fim. Já tenho fome.
No regresso, recebo
um sonoro “bom dia professora” vindo de alguém que me identifica. Não sei quem
é.
Mas ele sabe.
Eles sabem que, nesta casa, há professores portugueses.
Minha querida,
ResponderEliminarMesmo contrariando o aviso de que esta página não é aconselhável, entrei.
A transgressão é uma coisa que me fascina, como tu bem sabes... já estou como dizia o velho prof. Piteira Santos numa das suas aulas na Faculdade Clássica de Lx, qd perguntou a um aluno pra que serviam as virgens. A resposta não a vou dar aqui como é óbvio, mas está no seguimento da conversa ínicial.
Transgredi e violei o sistema.
Oxalá isso não me saia caro e entre vírus atacante por aqui dentro. Mas este meu PC está completa/ fanado, por isso...
Pois, vibrei com esta tua descrição q tb a mim me recordou os velhos tempos nas n/ igrejas aos domingos e uma lágrimazinha assomou impertinente aos meus olhos.
Só te conto um episódio q faz parte desses longínquos dias.
Domingo era o dia em que nós (eu e o meu irmão) íamos pedir a Benção ao nosso avô João. Todos os dias o víamos, pois eles, avós, viviam a 200m. Mas nesse dia a Benção tinha um significado especial e com ela pingavam sempre 2 ou 5 tostões que nós íamos investir nuns tremoços que se vendiam na praça, onde tremoceiras faziam uns cobres pra comprarem os seus enxovais. Eram esses os "mimos" que as crianças tinham na altura nas nossas províncias. Como os tempos mudaram!!!!!!!!!
Comoveu-me a devoção e espírito de fé dessas gentes. Por aqui grassa uma descrença e desapontamentos tais que nada nos salva ou demove dessas sentimentos.
Escrevi-te um longo e íntimo mail no hot. É pra lhe fazer jus ao seu nome de hot...
Um beijo grande e obrigada pelas tuas deliciosas notícias que de certeza farão parte das tuas memórias no teu regresso.
Bem hajas! A amiga MMadalena