terça-feira, 16 de julho de 2013

Ida ao rio


Ida ao rio

Não há muito para fazer nos tempos livres do fim de semana. Em Maliana, não convém sair à noite, pois as ruas não são iluminadas (apenas existe a luz das lâmpadas das próprias casas – a luz eléctrica existe há menos de um ano), não há um café que se possa frequentar ou um jardim onde se possa relaxar um pouco. Então, enquanto estamos em casa, lemos (e tenho lido bastante), vamos ao mercado,  costuramos se for necessário, cozinhamos, conversamos, fazemos exercícios de ginástica, temos sessões de cinema, etc. Quando o tempo é propício a isso (sem excesso de calor ou de chuva) podemos dar alguns pequenos passeios. Foi o que ontem fizemos. Para mim, foi a primeira vez. Fomos ao rio (ou como quem diz à ribeira porque dada a pouca extensão dos cursos de água que aqui existem, devem ser denominados ribeiras e não rios). Já o tinha visto no Google mas não presencialmente. É um curso de água que vem da 5ª montanha mais alta de Timor-Leste – o Loelaco. Serpenteando, derrubando margens, arrastando enormes pedras, desbravando caminho para, rapidamente, chegar à planície onde as águas finalmente se tornam mais calmas ao encontrarem espaço livre num leito forrado de pequenas pedras que se foram soltando, rolando e torneando.
Pedras arrastadas pela força da água

A ponte pedonal que precisa de reparação
Depois de descer a rua e virarmos à esquerda, entramos nos campos verdejantes onde aqui e ali algumas vacas se alimentam calmamente. Logo depois há uma ponte, por cima de um rio mais pequeno, a precisar urgentemente de reparação, por baixo da qual foi construído o canal que transporta a água roubada ao rio para servir a população de Maliana. Água ligeiramente cinzento-esverdeada talvez devido às águas sulfurosas das termas de Marobo, uns quilómetros mais acima (estas águas, que usamos no banho, quando aquecidas emanam um cheiro a enxofre). Será que são boas para a pele? Pode ser. Mas notamos que aqui a roupa se gasta mais do que habitualmente. E o vento? Nesta época, sopra bastante mas há muito menos humidade. O assobio do vento, o som abafado das árvores mais esguias, o estalar das velhas folhas das palmeiras  juntam-se ao barulho das águas revoltas para criarem a música que nos acompanha em todo o percurso.
Crianças a transportar lenha
O rio

Pelo caminho, algumas crianças transportam lenha à cabeça, lenha essa que irá servir de combustível para cozinhar e, para além do cumprimento habitual “botarde”, não se inibem de pedir “one dólar” a cada um de nós. Têm pouca sorte. Ninguém leva dinheiro. Só óculos, água, máquina fotográfica e toalha para depois do banho. Acompanhando o canal, eis que surgem as comportas que desviam a água do rio (já reparámos que quando chove, a água deixa de correr no canal para logo regressar quando ela deixa de cair) e, logo a seguir, é necessário atravessá-lo. Não é difícil, pois, nesta altura o caudal é bastante reduzido. É preciso sim ter algum cuidado para não escorregar. Ultrapassada esta etapa, chegamos à zona onde uns meses atrás existiam campos mas que a água arrastou consigo. Tomar banho, não tomar banho. Uns decidem que sim, outros que não. Eu só molho os pés. Aqui a água é um pouco mais fria mas nada que iniba quem é mais afoito e que acaba por se besuntar com a lama que por ali há na esperança dos seus benefícios para a pele. Um pouco de sol e de conversa e é necessário regressar a casa.


O gondoeiro
Agora anoitece cedo. Por volta das 6h 30m escurece. Viemos por outro caminho, igualmente agradável onde é possível encontrar algumas casas de habitação tradicionais, de zinco e até de pedra onde não faltam crianças pequenas. Alcançamos a estrada que já teve melhores dias, viramos à esquerda e ganhamos força para a subida que todos os dias fazemos mas em quatro rodas. Chegamos a casa, um banho e são horas de preparar o jantar. Hoje não é o meu dia de cozinhar.


O convívio saudável entre espécies diferentes
 

 

2 comentários:

  1. Num sítio onde há pouco para fazer, há que aproveitar e explorar as redondezas. Neste caso, uma ida ao rio parece ter sido muito agradável!

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  2. Fernando Louro Alves23 de julho de 2013 às 23:55

    E que tal se toda a gente por esse país fora, uma vez de vez em quando fosse "dar uma volta ao rio " ?
    Era bem giro, não era ?
    E descrever o que se sente ?
    Ora aqui está uma atividade interessante para tu fazeres quando voltares aqui às tuas aulas...
    Beijinhos

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