quarta-feira, 1 de maio de 2013


Acordar em Maliana

Ao fim de cerca de 3 meses e meio em terras de Timor Lorosae, já deu para perceber que os nossos ritmos de trabalho são diferentes.

Nos dias de trabalho, costumo acordar cerca das 6h 30m da manhã ao som do despertador do telemóvel e deitar-me por volta das 23h 30m. Durmo cerca de uma hora a menos do que em Portugal e, por vezes, sinto falta de ter mais descanso. Mas nem sempre é possível porque nos fins de semana ou nos feriados, em que poderia descansar mais, os meus “despertadores” naturais impedem-me que o faça.

 Passo a explicar:

- tal como as pessoas, aqui também os animais acordam cedo ou, pior ainda, parece que têm os sonos trocados. Neste momento, por ex. são 7h da manhã do dia 1 de maio de 2013 e já estou acordada desde as 6 horas.

E porquê?

 Isso deve-se a vários fatores e passo a enunciá-los sem qualquer preocupação de o fazer por ordem de grandeza:

1-os timorenses gostam de ouvir música alta e, logo cedo, chega aos meus ouvidos uma mescla de sons dos quais consigo apenas distinguir um contínuo “pum-pum-pum” das batidas;

2-os galos e as galinhas não acordam com o nascer do sol nem quando põem ovos. Parece que a qualquer hora do dia ou da noite é hora de soltarem as vozes e porem-se a entoar cânticos para verem qual é aquele que se consegue ouvir mais alto ou, quiçá, para ganhar um qualquer concurso de canto lírico.

3-os porcos, mais ao entardecer do que ao amanhecer, é ouvi-los grunhir alto e bom som, por alguma razão com certeza.

4-os pássaros. Ai os pássaros! Esses malditos que instalam os seus ninhos no espaço que medeia o telhado de zinco e o forro que o separa do meu quarto e bem cedo cantam, cantam e cantam e que acompanhados dos sons dos seus passinhos na madeira fazem perder o sono e a paciência a qualquer santo da terra. E eu não sou santa!

Há dias, tivemos a visita madrugadora de umas freiras que, logo que o seu convento esteja pronto, irão viver em reclusão (é preciso ter coragem!) se queixavam do excessivo barulho destes animais de palmo e meio mas que valem por gigantes.

5- os cães. Principalmente durante a noite, há dias em que mais apetece mandar vir o serviço de recolha para os levarem até ao canil. Estou a ironizar, claro. Acho que aqui nem há canis!

6-desculpem-me os católicos mas isto de às 6h ou 6h 30m irem para a igreja e cantarem, cantarem, cantarem até me cansarem os ouvidos, é dose. Cantam admiravelmente bem mas todos os dias… é demais!

7-os barulhos que durante a noite são perfeitamente audíveis e se devem, penso eu, à reacção dos materiais de construção, nomeadamente, a do metal de que são feitas as construções, à amplitude térmica que se verifica entre o dia e a noite.

8-não poderia terminar esta crónica sem me culpabilizar também. Por vezes, poderia dormir mais um pouco mas quando começo a pensar no que tenho de fazer, tenho de me levantar e fazê-lo. É o caso de hoje. Teria eu alguma necessidade de me pôr a escrever estas palavras a esta hora do dia? Claro que não mas eu sou assim, um pouco ansiosa e assim morrerei um dia.

 Podem dizer-me: há tampões para os ouvidos e vendas para os olhos. Pois há mas não dão jeito nenhum.

O povo de Timor levanta-se cedo, o calor que se sente durante o dia assim o exige. Mas também se recolhe cedo. Quero crer que é por isso que se veem muitas pessoas durante o dia a descansar à sombra das suas casas e não por outro motivo qualquer.

 

 

 

2 comentários:

  1. Crónica bem engraçada (que para ti não deve ter piada nenhuma!). Estou a ver que por essas terras não fazem falta os despertadores =)BBC Vida Selvagem

    ResponderEliminar
  2. Fernando Louro Alves6 de maio de 2013 às 23:17

    Essa faz-me lembrar a de um amigo meu que foi passar um fim de semana a uma pacata aldeia minhota, num turismo rural, simplesmente porque precisava descansar e o bucalismo das paisagens rurais seria certamente retemperador...
    À vinda gritava alto e bom som que nunca mais ! e vociferava contra sinos de igrejas, galos e cães, já para não falar de foguetes e morteiros evocativos de festas domingueiras...
    ah ah ah

    ResponderEliminar