quinta-feira, 24 de janeiro de 2013


O 1º passeio

Ontem foi o meu primeiro passeio por Maliana. Nestes dias tenho-me mantido em casa umas vezes porque me apetece, outras porque chove ou faz calor em demasia. As minhas únicas saídas têm sido apenas para ir trabalhar (e vou de transporte), ao mercado da cidade e meia volta no pátio da casa. Que canseira!

Depois das aulas e do almoço na casa da D. Filomena, viemos descansar e por volta das 17h 30m fomos andar a pé pelas redondezas. 

Ainda não tenho cá os meus ténis.  Estão em trânsito. O correio mais acessível pode demorar meses a chegar a Timor. Depois, há que contar com o tempo que demora a que algum dos colegas vá a Dili para recolher as encomendas de todos. Por mais absurdo que pareça, não há distribuição de correio em Timor! Há Internet mas não há correio. Cada um vai buscá-lo à estação de Correios de Dili.

Como não tenho ténis, calcei os chinelos de borracha. Em boa hora o fiz porque deu bastante jeito ao atravessar a ribeira. A cidade está rodeada de montanhas que serviram de abrigo à resistência timorense e, ao longo do percurso, a vegetação luxuriante esconde as marcas deixadas pela ocupação indonésia, visível nas ruínas daquilo que deveriam ter sido belas construções habitacionais e que os timorenses não reconstroem preferindo fazer as suas próprias habitações com madeira e telhados de zinco. Em Maliana, veem-se poucas casas com telhado de colmo.

Hoje, a água que escorre da montanha já não é barrenta. Com alguma imaginação poderemos dizer que é clara.  Escondidas atrás de buganvílias, dos coqueiros e de árvores que não sei identificar, há inúmeras casas cheias de gente que nos cumprimenta com um “Boa tarde” bem sonoro. Crianças descalças jogam à bola num pequeno campo improvisado rodeado de erva aparada por algumas vacas e cabras que, lenta e naturalmente, comem ao sabor da música que sai de algum rádio de uma qualquer casa que existe por ali. Auto-intitulam-se Cristiano  Ronaldo e Messi  e pedem para ser fotografados. Ao cimo de um pequeno morro encontramos um cemitério cheio de ervas que teimam em crescer e esconder belas campas onde não faltam marcas da religiosidade deste povo.

Uma pequena faixa de nevoeiro parecia cortar ao meio as altas montanhas que rodeiam Maliana fazendo adivinhar um temperatura bem diferente daquela que existe mais abaixo. À distância, Maliana parece outra.

Por vezes, é necessário fazer alguma ginástica para que os pés não escorreguem em alguma pedra que se interpõe no caminho estreito, tortuoso e enlameado. Quase no fim, paramos em casa de outras colegas e, por um atalho, rapidamente chegamos a casa.

Tomado o banho, são horas de jantar:

Em grupos de 2, fazemos o jantar para todos. Inclui sempre sopa com os ingredientes que encontramos à venda no mercado, fruta e um pequeno miminho (cogumelos salteados ou com massa, tostas com paté, chouriço). E conversamos, e rimos, por vezes, até chorar.

Longe de casa, é bom este convívio entre nós.

 

6 comentários:

  1. Olá Maria de Deus! Acreditas que diariamente vou ao teu blog saber informações tuas? É verdade! Depois conto-as na escola e cada vez mais temos a certeza que estás à altura deste desafio. Nunca imaginei o que te esperava mas agora sei que vais superar esta fase com sucesso. Vai-nos mantendo atualizada, assim ficamos tb a conhecer melhor Timor, especificamente Maliana.
    Um beijinho e mt força, coragem e elento. Só os fortes conseguem e tu és forte!

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  2. Olá mãe, continua a escrever no teu blog, pois achamos que tens um dom natural. Apesar de estarmos tão longe, com as tuas descrições tão reais e pormenorizadas, parece que estamos ao teu lado! No final desta experiência, este blog vai ser um best-seller. Aguardamos com muita expectativa os próximos capítulos. Mandamos um grande beijinho, dos teus meninos de PT

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  3. ...e a Maria lá se vai "entrosando" na nova vida...
    Tenho gostado de ler os teus relatos, acho que a Graciete deve abrir uma seção nova na Arméria chamada "Crónicas de Timor" onde vá publicando as tuas histórias :)
    Que rica experiência que daí vais trazer, até tenho vontade de te ir fazer companhia...
    Muitos beijinhos e continuação de bom trabalho.

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  4. Cerejinha
    Já tinha pensado qualquer coisa no género no que sugere para a Arméria, no que diz respeito ao relatos que nos tem feito a nossa Maria de Deus.Se os elementos do Grupo Arméria concordarem claro e,
    principalmente, se a Maria de Deus estiver de acordo. As tradições, os costumes, o ambiente, a geografia, as vivências, a cultura, as sensações... seria interessante dar a conhecer novas e enriquecedoras experiências, concordo.
    Bjs
    raciete
    E historicamente e emocionalmente estamos tão ligados a Timor...

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  5. Amiga,
    Confesso-te que venho aqui não uma, mas muitas vezes ao dia, na expectativa de encontrar mais um dos teus relatos, sobre essa tua experiência em longínquas terras pra onde os ventos da diáspora te levaram.
    Emociono-me até às lágrimas (mais do que uma vez, como tu calculas) com a descrição que fazes das sensações, vivências, cheiros, cores e odores que tão bem descreves.
    Algumas interrogações me ficam da tua escrita. Contudo há coisas que me soam familiares e que têm a ver com a minha passagem por África, durante a minha juventude e que guardo para mim e parecem retornar aos meus sentidos.
    Tens uma forma de escrita quase de um qq repórter jornalístico de viagens como se um tratasse de um Gonçalo Cadilhe... ias longe se intentasses por essas veredas.
    Vou mais longe do que as tuas amigas e colegas da Seta e seria interessante que te atrevesses a escrever pra um Jornal de Sindicato de professores. Era curioso que o fizesses e essas notícias chegassem aos nossos colegas do país.
    Seria mt curioso que nos falasses da carga horária, planos, programas, metas de aprendizagem!!!, estratégias!!!, apoios!!!!reuniões de ano!!! reuniões de Departamento, PIAS etc, etc, etc!!!!!!!!
    Estas terminologias fazem parte do léxico do MEC de Timor???? T~ens de apresentar relatórios e a tua Avaliação Docente???? quem ta irá fazer????
    Credo, credo, credo. Não se pensa nisso agora.
    Regressei a casa pra Assembleia de Condomínio e amanhã irei à Ericeira. A casa deve ter tantas saudades tuas qt eu tenho da tua agradável companhia.
    Vou aproveitar pra ir à escola a semana que vem e ver se arranjo companhia de macho pra ir ao cinema ver o Lincoln. O João prometeu que me acomapanhava com um sonoro e provocador "Bem se vê que te falta a MDeus...".
    Vais ter mais comentários que te chegarão por via indirecta da minha parte. Perceberás mais tarde.
    Vai dando notícias da tua nova vida de que hás-de ainda ter saudades.
    Apesar de tudo tenho uma ponta de inveja de ti.
    Beijos amigos e cuida-te e torna-te vegetariana.
    Carpe diem!!!!!

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  6. Eu devia ter vergonha, mas parece que não sou só eu: toda a gente te pede trabalho.
    Pois bem, como tu bem sabes, nós não damos importância àquilo com que sempre convivemos...
    Quando aí visitas ruínas... na realidade, elas constituem o documento histórico que alicerça a memória desse povo. E essa memória é a sua cultura.
    Uma nação tão jovem... tem um passado curto... ou talvez não.
    Porque não os ajudas a construir a sua história ?
    Há várias coisas que podes fazer por isso:
    Porque não documentas isso com um correto levantamento fotográfico ?
    Porque não elaboras um "relatório" acerca de cada um dos edifícios / outros vestígios ? Por exemplo em que sitio se escondia a resistência timorense ? Uma gruta ? uma plataforma de acampamento ?
    Nas aulas, ensinares aos garotinhos mais avançados (4º ano) o significado e o valor desses "locus" ?
    Inclusivé, poderias eventualmente fazer chegar essa informação aos poderes local e central daí...
    Ias ser uma bela "National Geographic Researcher"
    Pensa nisso.
    Beijinhos

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